Coordenação Pedagógica SCORING
Entrada del blog por Coordenação Pedagógica SCORING

A 24 de maio de 2022, o Parlamento aprovou uma proposta de alteração ao Orçamento do Estado para 2022 (OE2022) que prevê um estudo piloto sobre novos modelos de organização laboral. Na defesa deste modelo, destacam-se o aumento da produtividade, a melhoria da saúde mental dos trabalhadores, o combate às alterações climáticas e o bem-estar e equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Considera-se tempo de trabalho o período em que o colaborador exerce a sua atividade profissional e/ou está à disposição da entidade empregadora que, no sistema atual equivale a 8 horas de trabalho. Tendo em conta que um dia tem 24h, e que dedicamos 8h a trabalhar, 3h em deslocações, e 5h em tarefas domésticas, as restantes 8h que nos sobram seriam necessárias para dormir e descansar. Com este ritmo diário, que tempo sobra para a prática do lazer, como ver um filme, ler um livro, fazer desporto ou conviver?
É urgente refletir e mudar, investir mais tempo para melhorar a qualidade de vida, mudar os hábitos e mentalidades, e usufruir do tempo para, no fundo, viver melhor.
Imagine o seguinte cenário:
Na generalidade, o dia de trabalho inicia-se às 09h e termina às 18h, com uma pausa para almoço das 13h às 14h. Tenha como exemplo uma família constituída por um pai ou mãe, com dois filhos, que trabalha a 10km de casa e as crianças frequentam duas escolas distintas.
O dia começa às 06:30h, mas acorda e adia o despertador por 10 minutos. Levanta-se, toma banho, veste-se, arranja-se, arruma o quarto e ao olhar para o relógio repara que já são 07:30h e está atrasada! Acorda as crianças, que resistem a sair da cama e fazem birra para se vestir porque têm sono. Nisto, entornam o pequeno-almoço, sujam-se e têm de mudar de roupa e já são 08:10h e a escola começa às 08:30h.
Entram no carro e está transito, o que provoca ansiedade na família porque, mais uma vez, vão chegar atrasadas (às 08:40h). Ao chegar à escola, o carro encosta, uma criança sai a correr de mochila às costas e lancheira na mão, a mãe acena e atira um beijo, deixando-a de coração apertado e lágrimas nos olhos. Cinco minutos mais tarde chegam à segunda escola, onde se desenrola um cenário diferente, mas com o mesmo resultado.
São 08:45h, o trabalho começa às 09h e fica a 20 minutos de distância, sendo que, mais uma vez, está trânsito. O que seria um trajeto calmo, é feito repleto de nervos, stress e um telefonema para o emprego a avisar que vai chegar atrasada. No trabalho, a chefia reclama, os colegas sem filhos olham de soslaio com ar superior e, a manhã passa entre um misto de frustrações e demonstrações de competências que uma alegria fingida ajuda a disfarçar.
Na hora de almoço come uma sandes e aproveita para ir ao supermercado comprar pão e algo para o jantar, por isso bebe o café à pressa e não lhe cai bem. Recomeça o trabalho às 14h e passa a tarde entre reuniões, stress, nervos e ansiedade. Chegam as 18h e o trabalho ainda não acabou, mas como tem de sair, leva os relatórios para ler em casa, porque tem reunião no dia seguinte.
Vai buscar as crianças à escola, leva-as às atividades e, mais uma vez, chegam em cima da hora, o que provoca stress em todos. Às 20:30h estão de regresso a casa, e é hora de dar banhos, vestir, e preparar o jantar do dia e os lanches do dia seguinte.
Às 22h as crianças têm de estar a dormir. Ainda queria brincar ou rever trabalhos de casa, mas já é tarde e se não se deitarem cedo, é julgada pela professora e por um número de ativistas dos direitos da criança que a consideram má mãe/pai por não respeitar as horas de descanso (o que a deixa frustrada, ansiosa e triste).
Finalmente, às 23:30h já adormeceu as crianças, arrumou a cozinha, pôs as máquinas a lavar, as mochilas estão prontas e a casa organizada. Ainda falta o cão (ou gato, periquito, peixe, porquinho-da-índia, …), ler os relatórios e preparar a reunião. Vai dormir, às 01:30h, frustrada e ansiosa, o que lhe provoca insónias pois está cansada, esgotada. Com isto dormiu 5h, não brincou com os filhos, não fez desporto e não cuidou de si!
Sendo Portugal um país caracterizado pelos baixos níveis de produtividade, o debate sobre os novos modelos de organização laboral tem sido adiado. No entanto, a pandemia Covid-19 e o teste forçado ao teletrabalho, permitiu reconhecer que, a necessidade de um horário fixo e sincronicidade permanente cria problemas ao nível do trânsito, do meio ambiente, de custos, de deslocação, de perda de qualidade de vida e de tempo.
O bem-estar dos trabalhadores e a redução do risco de burnout deve ser uma preocupação emergente. Para o comprovar, basta olhar para outros países, como a Islândia, Japão, Nova Zelândia, Alemanha ou mesmo Espanha, onde já foram feitos testes à redução do horário de trabalho. Na Islândia, o teste realizado entre 2015 e 2019 com a redução para quatro dias de trabalho, foi considerado um “sucesso avassalador”. Na maioria dos locais de trabalho a produtividade foi mantida, ou até mesmo melhorada.
É urgente mentalizar a sociedade que o aumento da liberdade deve caminhar lado a lado com o aumento da responsabilidade. Se um trabalhador se sente reconhecido, valorizado, ou com maior qualidade de vida, a consequência direta será a preocupação em corresponder às expectativas do empregador e, desta forma, manter o equilíbrio e a tranquilidade que essas mesmas condições lhe proporcionam.

Carla Caldeira
(Licenciada em Economia)
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